Revista de Filosofia Aurora
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Revista de Filosofia Aurora, v.29, n.46, 2017.

Becoming Mountain


Ian Buchanan

Like the concept of the assemblage, the body without organs is much written about, but unlike the assemblage there are no specific schools of thought associated with the body without organs, much less any agreed definitions. As such, it tends to be used in a very vague manner, with most accounts of it ignoring its practical dimension and instead focusing on its aesthetic (Artaud) and philosophical (Spinoza) origins. However, Deleuze quite explicitly positions the assemblage as a contribution to an understanding of behaviour, so the purely philosophical accounts of the body without organs that give no account of how it can be used analytically are not helpful in my view. I demonstrate that the practical conception of the body without organs is an effective way of understanding the concept. I use the example of George Mallory’s attempt to climb Everest to illustrate this point. I argue that if we focus only on the symbolic attainment of being the first person to climb the world’s tallest mountain and consign the actual act of climbing to the realm of mere entry price, then we effectively destroy the assemblage by rendering it teleological. Now, one might think that this means one should balance the equation by focusing on the bodily dimension of the climb, and certainly that is the direction we need to take, but to do that we need to conceive of a space where that physical dimension can be registered in something other than purely biological terms. If, as Spinoza and after him Deleuze have argued, we do not know what a body can do, it is because we do not have the conceptual means of capturing and expressing its capabilities. We can record its achievements, but we cannot map its capabilities because the body seems always to be capable of doing more than anyone thought possible. Until 1953 when Hillary and Norgay reached the peak of Everest climbing Everest was generally regarded as impossible. A view that was reinforced by the dozen or so failed attempts, not to mention the many deaths occasioned by those attempts, that preceded Hillary and Norgay’ success. This is why Mallory’s insouciance in 1923 was so captivating. His answer ‘because it’s there’ shrugged off the one thing that was standing in the way of the conquest of the peak, the conviction that it was impossible. It also explains why his answer passed into history.


Palavras-chave: Assemblage. Body without Organs. Mountain Climbing. Intensity. Experience.


Tornar-se montanha


Assim como com o conceito de agenciamento, também se tem escrito muito sobre o corpo sem órgãos. Em detrimento do que acontece com o conceito de agenciamento, não há escolas específicas de pensamento associadas ao conceito de corpo sem órgãos, muito menos quaisquer definições determinadas ou específicas, isto é, evidentes. Tal conceito tende a ser utilizado de maneira muito vaga, a maioria das vezes ignorando sua dimensão prática, para se concentrar apenas na estética (Artaud) e nas suas origens filosóficas (Spinoza). No entanto, Deleuze estabelece explicitamente o agenciamento como uma contribuição para a compreensão do comportamento, pelo que, em minha opinião, as observações estritamente filosóficas do corpo sem órgãos, que não dão conta de como ele pode ser usado analiticamente carecem de utilidade. Neste sentido, demonstrar a concepção prática do corpo sem órgãos torna-se uma forma eficaz de entender o próprio conceito. Utilizo, para mostrar esse aspecto, o exemplo da tentativa de George Mallory de escalar o Everest. Argumento que, se nos concentrarmos apenas na conquista simbólica de ser a primeira pessoa a escalar a montanha mais alta do mundo e pensar o ato real de escalada como o preço fundamental que se deve pagar, então efetivamente destruímos por completo a dimensão prática do agenciamento, restando apenas uma versão teleológica do mesmo. Agora, pode-se pensar que isso significa que se deve equilibrar a equação focalizando a dimensão corporal da subida, e certamente essa é a direção que precisamos tomar, mas, para isso, precisamos conceber um espaço onde essa dimensão física possa estar registrada em algo que não seja em termos puramente biológicos. Se, como disseram Spinoza e logo Deleuze, não sabemos o que um corpo pode fazer, é porque não temos os meios conceituais de capturar e expressar suas capacidades. Podemos registrar suas conquistas, mas não podemos mapear suas capacidades porque o corpo parece sempre ser capaz de fazer mais do que qualquer um pensou possível. Até 1953, quando Hillary e Norgay atingiram o cume do Everest, a escalada foi geralmente considerada como impossível. Opinião que foi reforçada por uma dúzia de tentativas fracassadas, para não mencionar as muitas mortes ocasionadas por essas investidas, que precederam o sucesso de Hillary e Norgay. É por isso que a despreocupação de Mallory em 1923 foi tão cativante. Sua resposta “porque está lá” subestimou a única coisa que impedia a conquista da cima, a convicção de que era impossível. Também explica por que sua resposta passou para a história.


Keywords: Agenciamento. Corpo sem órgãos. Alpinismo. Intensidade. Experiência.



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