Revista de Filosofia Aurora
article

Revista de Filosofia Aurora, v.29, n.46, 2017.

Corpo sem órgãos e a produção da singularidade: A construção da máquina de guerra nômade


Regina Schöpke

Este trabalho tem como objetivo central mostrar como o conceito de corpo sem órgãos, que apareceu, primeiramente, na obra de Antonin Artaud, e que será reativado por Gilles Deleuze e Félix Guattari, está diretamente associado à produção da máquina de guerra nômade. Neste aspecto, é preciso ir mais longe na compreensão do sentido vital, existencial e político deste que não é um conceito propriamente dito, mas um modo de ser, um modo de se produzir e de produzir a existência. “Não é uma noção, um conceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas”, afirmam Deleuze e Guattari. Em um sentido bem estrito, trata-se da produção de um corpo mais pleno, mais vivo, mais intenso, um corpo de resistência para o desejo e para a própria vida, o que só é possível se desconstruímos o corpo criado para servir docilmente aos poderes do campo social. Só que é aqui que reside o maior de todos os perigos: nem toda desconstrução se converte em criação de um corpo sem órgãos no sentido revolucionário. É preciso que a guerra vá além daquela que se trava contra os órgãos ou contra o organismo (que, aliás, se levada às últimas consequências, como sabia o próprio Artaud, significa simplesmente matar-se). A guerra é pela libertação da vida que foi aprisionada no homem e pelo próprio homem. É contra o niilismo, que nasce da opressão das forças vitais que transformou, por sua vez, nosso corpo e nossa razão em reféns dos poderes estabelecidos. Criar um corpo sem órgãos para si é já fazer parte de um devir nômade libertário, que é, antes de tudo, criador de novos modos de ser, de existir, de viver.


Palavras-chave: Deleuze. Guattari. CsO. Singularidade. Nomadismo.


Body without organs and the production of singularity: The construction of the nomadic war machine


This work is mainly aimed to show how the concept of body without organs, which initially has appeared in the work of Antonin Artaud, and will be reactivated by Gilles Deleuze and Felix Guattari, It is directly associated with the production of the nomadic war machine. Considering this aspect, we need to go further to understand the vital sense, existential and political that it is not a concept itself, but a way of being, a way of producing and to produce existence. "It´s not an idea, a concept, but rather a practice, a set of practices" says Deleuze and Guattari. In a restrict sense, it is the production of a fuller body, more alive, more intense, a resistance body to desire and to live itself, which is only possible to deconstruct the body created to serve meekly to the powers of the social field; but it is here that resides the greatest of all dangers: not all deconstruction becomes creation of a body without organs in the revolutionary sense. It needs to go beyond that the war being waged against the authorities or against the body (which, incidentally, if carried to its logical conclusion, as did the Artaud himself, simply meaning to kill themselves). The war is the liberation of life that was imprisoned in the man and the man himself. It is against nihilism born of oppression of the vital forces that transformed, in turn, our bodies and our reason into hostages of the established powers. To create a body without organs itself is part of a libertarian becoming nomadic, that is, first of all, creator of new ways of being, to exist, to live.


Keywords: Deleuze. Guattari. CsO. Singularity. Nomadism.



Texto completo em PDF