Revista de Filosofia Aurora
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Revista de Filosofia Aurora, v.19, n.23, 2006.

SADE, Marquês de. Justine ou os infortúnios da virtude. Rio de Janeiro, RJ: Saga, 1968


Carla Regina Françoia 1

Se é verdade que a literatura descreve aquilo que a filosofia conceitua, Justine ou os infortúnios da virtude não escapa a esta afirmação e, mais, explicita de forma fiel a relação de Marquês de Sade com sua filosofia. Escrita em 1788, quando o Marquês já estava preso há cinco anos na Bastilha e um ano antes de ser transferido para Charenton, esta obra, como quase tudo escrito por Sade, revela suas idéias sobre a política, a igreja, o amor, a Providência Divina e o sexo aos olhos do materialismo a partir dos mais bizarros e infelizes desencontros na vida de uma jovem devota que abre mão de seguir sua irmã ao tornar-se órfã de pai e mãe. Julieta aventurou-se pelos caminhos da má conduta ao prazer de ser livre com o intuito de ser uma grande dama portadora de grande riqueza. Conseguiu, mesmo que para isto tenha se utilizado de subterfúgios, tais como: crime, roubo, mentira, prostituição entre outros modos de vida descritos nas obras de Marquês de Sade. Enquanto isto, Justine, ao contrário de Julieta, dotada das mais belas virtudes, cairia nas mais ardis situações que colocariam à prova sua crença na Providência e na bondade dos homens. Em momento algum abandonou o caminho do bem. Duas irmãs separadas pela vida e pelo temperamento encontram-se anos mais tarde, uma rica e a outra sendo condenada ao cadafalso. Julieta e Justine, ambas figuras literárias que descrevem pela narrativa de suas vidas, num extremo e até mesmo repetitivo realismo, as aventuras defendidas por Marquês de Sade na sua filosofia libertina que vem iluminar os caminhos obscuros de que se serve a Providência para alcançar os fins que propõe ao homem. Sem se reconhecerem à primeira vista, Justine, ao encontrar a Condessa de Lorsange, sua irmã, passa a contar para esta toda a história de sua vida, omitindo seu nome para não expor a família à vergonha, descreve todas as desgraças das quais fora acometida pela miserável vida que até então havia tido. Sendo o excesso uma das características da obra, a personagem virtuosa sadiana narra sua jornada entre o desespero e a esperança, entre a salvação e a perdição, entre o bem e o mal. Portanto a história que segue é a da virtude perseguida e sempre perecida, mas que ressurge novamente em um novo evento e do triunfo do vício que sempre prospera. Entretanto, Marquês, logo de início, adverte o leitor de sua obra qual é o verdadeiro intuito em descrever as infelicidades acabrunhadoras de Justine respeitadora da virtude e de Julieta, mulher que a menosprezou toda a vida. Vamos à obra para entender o que Sade busca apontar com as desventuras de sua heroína. Como afirma Sade, é pela aprendizagem mais vergonhosa e mais dura é que estas senhoritas abrem seu caminho, sendo Justine repelida duas vezes no mesmo dia em que inicia sua jornada, pois buscava pela generosidade dos homens, Julieta procurou um outro caminho que a fez encontrar-se com o crime, prazeres vergonhosos, devassidão, vícios ocultos, gostos escandalosos e estranhos, fantasias humilhantes, mas que a fizeram reconhecer em si mesma o desejo por tais sentimentos, desejo de fruição e saciação pelas depravações em que colocou a serviço sua natureza, a princípio, e que logo após esqueceu completamente suas leis. Desta forma, aos quinze anos, quando já possuía fortuna, a personagem que reconheceu ter nascido para o crime não poupou artifícios para, cada vez mais, conseguir chegar onde somente alguém, como o Marquês descreve em toda a obra, que não está no caminho da virtude, mas num século tão corrompido e que permite, pela sua trajetória, a manutenção do equilíbrio entre o bem e o mal demonstrando nas suas ações levianas e libertinas que tudo podia e tudo alcançava. Pois é aí, nesta busca por meio do roubo, do assassinato, do infanticídio – Julieta abortou inúmeras vezes – que Julieta chegou à prosperidade e à felicidade. Mas Sade afirma também, que do mesmo modo que a prosperidade é possível por este caminho, ele faz alusão ao impedimento de usufruir desta felicidade pelas recorrentes recordações dos crimes cometidos. Enquanto há aquele em que a sorte é faltante que padece por viver de acordo com as leis que regem sua virtude não sofrem pela rememoração, antes, retiram suas alegrias de sua pureza, como é o caso de Justine. Ora, parece paradoxal Marquês de Sade atribuir a uma libertina um comportamento que possui raízes na moral cristã que tanto nosso aristocrata ferozmente dedicou sua vida em combater. À primeira vista podemos dizer que é equivocada a leitura da obra de Sade pelo viés da culpa como no caso de Julieta. Vale lembrar que Sade foi um aristocrata perseguido tanto pela monarquia, pela revolução e por Napoleão e que viveu numa França assolada pela fome, pelo frio e pela indulgência de seu governante que, em Versalhes, vivia entre pompas e riquezas enquanto o povo perecia. Portanto, é preciso deixar em aberto, por enquanto, qual a intenção do autor, tido como libertino, criminoso e perseguido por comportamento desonroso ao colocar Julieta, atormentada pela culpa, alterar seu modo de vida talvez por atenção, procedimento ou sabedoria unindo-se a um gentil homem, Sr. De Corville. Numa tarde de passeio, o casal, que já vivia a cinco anos juntos, encontrava-se num albergue para um momento de descanso quando, Julieta, já com trinta anos, vê uma jovem maltrapilha sendo carregada por guardas, pois era tida como uma criminosa condenada. Ao se compadecer pela pobre criatura pede para que fique aos seus cuidados e que conte a história que a fez chegar neste estado de comiseração em que se encontrava. Aqui começa a narrativa de Justine, que se apresenta como Sofia e passa a contar a história de seus infortúnios. Seus encontros revelam a partir dos seus diálogos de modo repetido o que se chama então a filosofia sadiana. Isto é, os diálogos de Justine com seus interlocutores falam sobre o governo, a igreja, a moral, relacionamentos familiares, troca de favores, mentira, crime, entre muitas outras coisas importantes ao que se propõe o Marquês criticar e explicitar. O que vale ressaltar é a riqueza da narrativa que nos permite reconhecer a obra e sua radicalidade. Contava já com quatorze anos, pobre e desprezada, foi pedir emprego a um rico comerciante da capital que a aconselha procurar a sorte em casa de todos os libertinos. E assim inicia-se um diálogo que prevalece como tema o orgulho, a bondade, as paixões e a satisfação. Prepõe-lhe abrir mão de sua condição virtuosa e entregar-se a seus criados para que fosse submetida num cerimonial libertino. Assim, desespera-se pela execrável proposta retorna entristecida a seu minúsculo quarto alugado e cai em sombrias reflexões sobre a crueldade e corrupção dos homens. Sade nos diz pela boca de tal homem: nossas paixões só têm encanto quando transgridem o melhor das suas intenções. Num outro momento, encontra-se vítima da avareza e do engano numa casa em que fora trabalhar. Acusada pelo dono da casa por roubo, Justine foi vítima de uma vingança por não ter aceitado a proposta de seu patrão para furtar um terceiro, portador de muitas jóias. E, sem a menor possibilidade de se defender, é condenada e então Justine reconhece: estava escrito nas páginas do meu destino que a cada um dos meus atos de honestidade a que me levava meu caráter corresponderia, em contraposição, uma infelicidade. A cada encontro, cada movimento seu regido pela pureza do caráter, pela virtude era condenada, maltratada, acusada. A jornada de Justine será sempre marcada desta forma, o infortúnio pela má sorte para logo em seguida encontrar-se com uma saída satisfatória para seu sofrimento, mas imediatamente a um esboço de alegria, novamente um infortúnio. É preciso tentar compreender na obra qual a intenção desses desencontros todos. Após o tema da avareza, chegou à condenação de Justine pela justiça que não lhe deu crédito algum, por onde Sade afirma pela voz da heroína que fugiu da cadeia por meio de um incêndio proposital: Crê-se na virtude como que incompatível com a miséria... e como títulos ou fortuna provam a honestidade ficou impossível a esta pobre miserável defender-se, apenas a chance de tentar a vida em um outro lugar. Isto é, Justine torna-se uma fugitiva da justiça dos homens. A natureza nos fez nascer todos iguais, Sofia. E se a sorte teima em desorganizar o primeiro plano das leis gerais, cabe a nós corrigir os seus caprichos e sermos hábeis para usurpar os mais fortes... A cada nova aventura, Justine encontrava pessoas dotadas de má índole que tentavam convencê-la de que ela era mais condenada por ocupar-se de seus interesses pelo caminho da virtude e da honestidade e menos acolhida pela Providência que tanto amava e respeitava: o que tenho sofrido Vos adorando me torne digna de um dia receber as recompensas que tendes prometidos aos fracos. É possível retirar desta obra, a partir dos diálogos, uma ética? É realmente uma crítica violenta e purulenta que Marquês ergue a França pré-revolução. Ou, é apenas um homem libertino que está, em forma de romance, transmitindo aos franceses receitas de deboche, escárnio e corrupção? Talvez seja a união destas idéias que fundamenta tal obra, pois Sade descreve as fatalidades de uma jovem que não sonhava com riquezas, apenas buscava um meio de viver honestamente, e que, a cada encontro, colocava a jovem caindo aos pés de seus algozes implorando clemência e piedade, numa cena patética e humilhante, onde era ridicularizada e menosprezada. Apaixona-se por um pederasta que a acolhe em casa pedindolhe que reconheça o bem que a fez com tal ação, para logo após proporlhe que ajude a matar sua mãe, pois desejava a herança antes do tempo natural que rege a vida e a morte. Nega-se terminantemente, para depois aceitar movida pelo intuito de salvar a coitada. É pega na traição, a mãe do Marquês de Bressac é morta por ele. Justine termina a cena sendo acusada de assassinato deixando para traz seus pertences particulares e ainda leva chicotadas. Ouve de seu amante matricida: agora preciso te punir, ensinar-te que o caminho da virtude nem sempre é o melhor e que há certas situações na vida onde é preferível a cumplicidade de um crime à sua delação...tu imaginavas que seria capaz de me deter algum sentimento de piedade, que só posso trazer no meu coração se assim exigirem os interesses dos meus prazeres ou alguns sentimentos de religião, que não vacilo em pisotear? Há um argumento que vale a pena apresentar aqui. Ao clamar que tal sujeito volte atrás na idéia de matar sua mãe, Justine o faz pelo viés da religião. O Sr. De Bressac diz que Deus existe não pela prova cabal de sua existência, mas sim pela ignorância daqueles que assim pensam, e que as religiões carregam em si mesmas o emblema da impostura e da estupidez. Marquês de Sade está afrontando o clero de sua época – um dos motivos que durante tantos anos esta obra literária foi proibida na França – e sua crítica se faz no transcorrer do livro tanto a igreja, como a lei moral cristã, usada como meio de manipular os miseráveis e beneficiar a si própria e o quanto àqueles que são seus ordenadores são em suas essências os piores dos libertinos. Por isso, um dos eventos narrado com maior riqueza de detalhes e tomando grande parte da obra é quando esta infeliz chega ao convento Santa Maria dos Bosques. Acreditou que ali encontraria a recompensa de que tanto havia clamado a Providência Divina. Ledo engano. Pois foi neste lugar que sem piedade fora vítima de uma furiosa violação pelo Padre Antônio e obrigada a participar de cerimônias libertinas, rituais de devassidão aos pés das imagens sacras junto com mais sete mulheres enclausuradas por quatro Padres devassos. E lá permaneceu durante anos sendo obrigada a cometer os mais violentos atentados à sua crença sagrada para atender as fantasias e as violações de todas as leis naturais. Mesmo assim, não abandonou os seus sentimentos de religiosidade. Parte para um outro evento cruel. Por ser pobre, passa a ser tratada como fraca e, portanto, mantida como escrava por um Senhor que durante muitas noites vinha procurá-la para saciar seu apetite sexual. O seu argumento era que o homem é, pois, naturalmente mau, e o que é quase tanto delírio de suas paixões como nos seus momentos de calma, e há casos em que os males do seu semelhante podem vir a ser um prazer abjeto para ele. Enfim, são vários os caminhos tortuosos por que passa a heroína da obra até encontrar-se com sua irmã e, então, poder encontrar-se com a recompensa divina por não ter desistido de acreditar na Providência dos céus. Morre, logo após algum tempo por um raio que percorre seu corpo deixando-a desfigurada. Cena impressionante que toma Julieta e a faz abandonar sua vida atual, mais uma vez, para espiar seus pecados aos pés do Eterno. Uma mulher mundana corrigida pelo tempo, arrependida de seus crimes, vai para a ordem das carmelitas tornando-se modelo e exemplo de bondade e piedade. Surpreendente é tomar esta obra por ela mesma, sem buscar noutro lugar o Marquês de Sade. Ao ler os diálogos e as descrições que Sade faz da vida humana, fica fácil entender por que esta obra é considerada como o melhor romance do autor. Como logo no início Marquês nos pede que pela boa-fé possamos dar atenção misturada com interesse pelo que será narrado, a obra toda, do começo ao fim, é uma crítica acirrada tanto à justiça que só toma o homem próspero como o correto, o bom, quanto para a igreja, com sua falsa moral cristã, da liberdade roubada do fraco pela mão do mais forte, das ações criminosas para se alcançar de qualquer modo um fim desejado, dos vícios como contrapartida da virtude, do carrasco impiedoso com sua vítima. Não obstante, tomados estes exemplos não como desvio da regra, mas como a descrição fiel da natureza humana. Sade, um ateu? Não, não é isto que o Marquês quer apontar com a crença muitas vezes desvairada de Justine que beira ao patético, em cada vã situação que se encontra e no modo como manejava sua conduta. Como afirma Carpeaux no prefácio do livro, podemos chamar Sade de ateu exatamente como aquele que nega não a existência de Deus, pois Julieta é um elogio a isto, mas como quem nega sua moral. Ou melhor, a moral criada pela religião que por sua vez é uma criação humana. Marquês fala de política, de moral, ética, descrevendo assim aquilo que se tentava encobrir, mas que é a raiz dos poderes, a tenebrosa natureza humana.





1 Psicanalista e Mestre em Filosofia pela UFPR. E-mail: carrefran@hotmail.com

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